Representação, moda, rodas e eu

Representação, moda, rodas e eu

Aos dois anos, Charlotte, foi diagnosticada com neuropatia motora e sensorial periférica. Actualmente é aspirante a actriz e modelo. Leia sobre como conseguiu atingir os seus objectivos e inclusivamente ser escolhida para interpretar a condessa de Gloucester no filme sobre a vida de Ricardo II…

Com apenas dois anos de idade fui diagnosticada com uma rara doença designada neuropatia motora e sensorial periférica o que significa, resumidamente, que os meus nervos não comunicaram aos músculos para crescer. Eu consegui caminhar até aos nove anos de idade, mas a partir dessa data comecei progressivamente a depender da cadeira de rodas.

Charlotte-1 Após completar o liceu, tive que decidir, tal como todos os restantes alunos, qual o caminho a seguir em relação à minha vida educacional. Optei pelo meu amor ao teatro e música e candidatei-me a uma escola profissional de artes performativas. Esta decisão foi tomada porque eu senti que era algo que eu poderia fazer por mim, visto que posso contar com apoio diário na minha vida. Depois de uma audição bem-sucedida, tive a possibilidade de estudar e de representar em peças de teatro e musicais. Após um ano de formação, decidi que necessitava de mais experiencia, candidatei-me ao conservatório para obter um diploma de dois anos em artes performativas. Mais uma vez, tive a oportunidade de participar em várias peças dentro e fora da faculdade, de modo a melhorar o meu desempenho.

Novamente, ao terminar o curso, tive que voltar a ponderar que rumo seguir neste louco mundo das artes. Sendo assim, optei por matricular-me na universidade para realizar um bacharelato nesta área. Esta experiencia permitiu-me contactar com a academia de cinema Britânica, que naquele momento estava a desenvolver um novo projecto para um filme. A academia foi até ao campus da universidade e vários alunos, incluindo eu, fizeram um casting para vários papéis. Alguns candidataram-se também como voluntários para dar apoio nas áreas de produção, realização e caracterização. Esta oportunidade decorreu durante as férias de Verão e eu tive a sorte de ser escolhida para representar a duquesa de Gloucester na Longa-Metragem sobre a vida de Ricardo II.

Depois de me graduar desejava uma carreira profissional como actriz, sabia que seria um desafio, mas esta profissão é dura para qualquer pessoa, com ou sem deficiência, por isso eu estava pronta para lutar! Eu tive imensa sorte, pois passado alguns meses após ter completado a minha licenciatura, vi um anúncio em que procuravam actores com deficiência. Candidatei-me e consegui um papel numa série da BBC1 bastante aclamada chamada de Parteira. Foi o meu primeiro papel como actriz profissional. No entanto continuo a ir a outras audições e estou determinar a desenvolver a minha carreira.

Charlotte-2Também tenho tentado participar o mais possível em workshops de representação para manter e melhorar as minhas capacidades enquanto actriz e também fazer networking com pessoas do meu ramo. No entanto, isto tornou-se um desafio maior do que o esperado. Ao longo de um ano e meio, tenho vindo a deparar-me com o facto de muitas das oportunidades de formação ocorrem em locais de difícil acesso. Se há escadas não há rampa ou simplesmente não há elevador. Esta situação tem tido um efeito negativo na minha carreira, pois eu não tenho conseguido estar tão activa como desejava. No entanto, tento lidar da melhor forma possível com esta situação procurando, através da internet, uma empresa que escolha locais acessíveis. Devido à minha profissão, tenho que ir a Londres várias vezes. Como tenho um assistente comigo significa que a viagem de comboio custa o dobro. Eu sinto que algo precisa de ser feito. Uma alternativa seria os assistentes terem direito a uma redução no custo do bilhete ou, então, tem de haver um fundo de apoio para ajudar com estes custos. Pessoas como eu e com deficiências semelhantes não podem viajar sem assistência, e, portanto, assim é mais difícil exercer qualquer tipo de carreira nas artes ou em outras áreas.

No momento eu estou a começar a trabalhar como voluntária num grupo de teatro terapêutico. Além disso, também tenho organizado workshops para jovens e adultos com deficiência. Tem sido algo bastante gratificante e espero poder continuar no futuro.

Paixão pela moda

Charlotte-RutterParalelamente à minha carreira de actriz eu também tenho uma paixão pelo munda da moda. Desde a minha adolescência que a moda sempre me interessou e era uma espécie de hobbie. Desde de ir às compras num sábado à tarde até comprar as revistas de moda mais recentes para estar a par das tendências. Para mim, a moda é uma forma de me sentir igual às outras raparigas da minha idade. Apesar dos desafios que é para alguém como eu seguir as tendências. Devido à minha deficiência eu não posso usar saltos, por isso tento procurar alternativas como sapatos rasos pontiagudos com tachas ou detalhes chamativos. Isto pode ser um pouco frustrante, mas eu só faço à minha maneira! Além disso, como uso uma cinta para as minhas costas preciso de procurar tops longos em vez de curtos. Simplesmente tento adaptar a moda actual de modo a sentir-me bem. Como todos nós sabemos não somos todos iguais, como seria aborrecido se assim fosse!

O meu look favorito é o meu casaco preto a imitar pele, uma blusa e as minhas calças de padrão ao xadrez. Também gosto muito de maquilhagem e tenho a minha própria maneira de usar. Eu adoro utilizar eyeliner preto, pois realça bastante o olhar. Também aprecio bastante o estilo vintage e gosto de usar batom vermelho quando vou sair à noite.

Gostaria de ter a oportunidade de ter uma experiencia como modelo e gostaria de ver mais modelos com deficiência em catálogos, revistas de moda e nas nossas lojas. Certamente é uma forma de reflectir a sociedade em que vivemos.

Espero um dia alcançar os meus objectivos, continuar a ajudar a eliminar barreiras no mundo das artes e se possível inspirar outras pessoas com contexto semelhante a fazer o mesmo.

Charlotte Rutter, traduzido por Rita Duarte

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