Porque precisamos de mais histórias de deficiência que não são sobre a superação de deficiência

Porque precisamos de mais histórias de deficiência que não são sobre a superação de deficiência

Brittany Dejean é fundadora e diretora do AbleThrive.com, uma empresa que centraliza e organiza recursos de alta qualidade (provenientes de todo o mundo) para viver bem com uma deficiência para que as pessoas possam encontrar o que precisam para prosperar. Aqui Brittany fala sobre por que precisamos de mais histórias de deficiência que não são sobre a superação da deficiência …

A maioria das histórias sobre deficiência que chegam ao público “exigem” que a pessoa a supere. Você já viu os titulos dos jornais: “Noiva paralizada caminha pelo corredor” ou “estudante paralizado anda no dia da formatura” Histórias como estas merecem (e devem continuar a) ser compartilhadas, mas se essas são as únicas histórias que vemos nos meios de comunicação, nós estaremos a ver apenas um retrato de deficiência e estamos a ignorar a diversidade de experiências e perspectivas de deficiência.

Tomemos paralisia como um exemplo. Claro, algumas pessoas dariam tudo para poder caminhar. Muitas pessoas vão até extremos para poder alcançá-lo… e alguns até têm sucesso. No entanto, nem todos têm a opção de andar. Alguns nem sequer querem andar.

Se nos concentrarmos apenas em histórias onde o tema principal (ou vitória) envolve a superação de uma deficiência, nós estaremos a alienar as pessoas e famílias que abraçam a deficiencia, orgulhosamente como uma parte de sua identidade e para quem uma cura ou remédio não está acessível. Negamos a realidade por não reconhecê-la, perpetuando a idéia de que a única maneira de viver com uma deficiência é tentar apagá-la da memoria. Isto não é como eu vejo a experiência da minha família.

Meu pai ficou paralítico num acidente de carro quando eu tinha 12 anos de idade. Ele viveu sem poder mover nada do peito para baixo (incluindo os dedos) durante os últimos 17 anos. O meu pai enfrenta desafios relacionados com a sua deficiência, isso é certo, e nossa família passou por uma grande dose de sofrimento quando o acidente aconteceu, mas isso não significa que nossas vidas terminaram naquele dia. Na verdade, o meu pai vive uma vida muito gratificante como um utilizador de uma cadeira de rodas. No entanto, muitas vezes, quando eu compartilho com outras pessoas o facto de que o meu pai tem uma deficiência, muitas fazem suposições sobre sua vida. Na maioria das vezes as suposições são negativas, mas essas pessoas (muito provavelmente) nunca viram uma alternativa que mostra o contrário.

Brittany and Romain
Dei-me conta desta lacuna nos meios de comunicacao quando comecei a compartilhar uma história sobre meu pai dançando – pela primeira vez nos 17 anos desde o acidente – no meu casamento. Ele adorava dançar antes de ficar paralizado e, embora ele soubesse que era possível dançar em uma cadeira de rodas, ele nunca teve coragem de o tentar. Isso durou até que ele escolheu honrar o meu pedido para uma dança no meu casamento. Esta dança como que quebrou uma barreira psicologica nele, e ele não saiu da pista de dança o resto da noite. Duas semanas mais tarde, ele dançou num outro casamento. Depois disso, ele tomou a decisao de participar em aulas de dança com a minha madrasta, para que ele pudesse aprender mais técnicas.

A transformação do meu pai é uma história de um homem que sofreu um trauma que alterou a sua vida… e um momento especial que quebrou uma parede emocional que o impedia de fazer algo que ele amava. A sua história é poderosa em muitos níveis. Não só pode ele agora inspirar outras pessoas em cadeiras de rodas para não desistir de sua paixão, mas ele também pode mostrar ao resto da sociedade que alguém com uma deficiência pode viver uma vida feliz e significativa.

Muitos dos milhares de pessoas que assistiram ao vídeo da história de meu pai podem agora olhar  para um homem com uma deficiência e, talvez pela primeira vez em suas vidas, não se sentem compelidos a “consertar-lo”. A deficiência do meu pai está presente sem evocar simpatia ou compaixão. Se a sua história faz alguém pensar duas vezes antes de “sentir pena” na próxima vez que virem alguém com uma deficiência em público, nós estaremos a começar a plantando as sementes da inclusão através da promoção de empatia.

As pessoas com deficiência e suas famílias são responsáveis por fazer as suas próprias escolhas sobre a deficiência e têm seus próprios pontos de vista e narrativas, que todos merecem ser igualmente respeitados e representados na sociedade e nos meios de comunicacao. Vamos deixar as pessoas tomarem as suas próprias decisões, aceitar e respeitar a diversidade.

Os meios de comunicacao têm o poder de validar as experiências de famílias como a minha e pessoas como o meu pai. Ao mostrar um lado humano de deficiência que seja acessível para o público mainstream, criamos espaço para a consciência e aceitação das pessoas que estão vivendo activamente com suas deficiências e estaremos tambem a construir a fundação de uma sociedade inclusiva.

No final, todos nós somos apenas pessoas vivendo nossas vidas o melhor que podemos, aproveitando ao máximo o que a vida nos entrega. Tentemos garantir que todos têm um lugar para ser vistos e apreciados.

Brittany Dejean, taduzido por Filipe Roldao

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