Gay e deficiente: tenho orgulho em quem sou

Gay e deficiente: tenho orgulho em quem sou

Falta pouco menos de uma semana para começar um dos principais eventos que eu e os meus amigos vamos sempre – Grande Fim de Semana de Manchester também conhecido como a parada Gay. Eu assumi ser lésbica há já alguns anos e recebi quase nenhuns comentários negativos acerca da minha orientação sexual.

Eu também estou registada enquanto portadora de deficiência durante toda a minha vida, mas a resposta das pessoas para este facto é totalmente diferente e raramente positiva. A grande maioria das vezes, quando conheço novas pessoas e menciono durante uma conversa que sou deficiente o ambiente torna-se desconfortável. Já inclusive aconteceu, alguns indivíduos responderem: “ a conversa não precisa de ficar tão deprimente”. Peço imensa desculpa, mas não me tinha apercebido que a forma como nasci fosse assim tão negativa.

Eu tenho 21 anos de idade e nasci com espinha bífida oculta, síndrome do intestino curto e desenvolvi uma escoliose durante a adolescência. Eu cresci dentro e fora de 3 hospitais pediátricos e sou actualmente enquanto adulta paciente de 3 hospitais. Já perdi a conta de quantos relatórios clínicos tenho em meu nome.

Contudo as minhas deficiências não são imediatamente perceptíveis, por isso, não me enquadro no perfil que a grande maioria das pessoas visualiza quando pensa num indivíduo deficiente. O mesmo se passa em relação à minha orientação sexual. Muitas pessoas ficam surpresas quando ouvem falar destes dois aspectos em conjunto.

Quando eu me assumi como gay, várias pessoas disseram; “Não, tu não és gay “, seguido por um intrusivo questionário. Esta situação ocorreu com maior frequência quando me encontrava perante um grupo de rapazes.

Ser atingida por um rol de perguntas indesejadas é chato, mas pior do que isso, considero este comportamento homofóbico – representa uma falta de respeito em relação à orientação sexual de um indivíduo. No entanto, não é tão mau como ser acusada de estragar o ambiente de uma conversa por mencionar que tenho uma deficiência.

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Toda a minha vida tive que aprender a navegar numa sociedade sem deficiência física, ao mesmo tempo que tive que aprender a lidar com o facto de medicação e cirurgia fazerem parte do meu quotidiano. Tanto eu como a minha irmã mais velha fomos afastadas de uma escola primária por sermos deficientes. Felizmente eu consegui encontrar uma escola mais favorável, no entanto a experiência da minha irmã foi menos positiva, que a minha.

Em Primeiro lugar, deparei-me no meu primeiro dia de escola que as minhas deficiências colocavam-me no papel do “outro”. Foi intimidada por andar devagar, por transportar um encosto e por utilizar instalações para deficientes. Os estudantes gozam-me dizendo insultos e imitando a minha forma de andar.

De repente, a minha vida quotidiana serviu-me como um lembrete diário de porquê que eu no meu nascimento tinha sido diagnosticada como “errada”. Até uma vez me pediram, ao tirar uma foto escolar, para tapar o meu suporte ortopédico para a perna. A fotógrafa veio em minha direcção e tentou puxar as minhas perneiras sobre o meu suporte sem me perguntar. Ela bufou quando viu que era incapaz de fazê-lo.

Insultos homofóbicos e discriminação também estiveram presentes durante a minha adolescência, mas a diferença foi que, enquanto eu estava lutando com a minha sexualidade, eu estava ciente da existência de websites e eventos de apoio como a parada gay. Eu sabia que havia pessoas gays em relacionamentos amorosos, e que longe do ambiente de ensino secundário, ser gay era algo que poderia ser comemorado.

Mas eu nunca tinha ouvido falar de pessoas como sendo felizes, orgulhosas ou celebrando o facto de serem deficientes. Ser deficiente foi apresentado como algo a temer. – ” Se você fizer isso, pode acabar deficiente“. A comunidade de deficientes foi aquela em que ninguém queria fazer parte porque ser deficiente significa que algo não funciona correctamente.

Se você é deficiente logo ‘não pode’ fazer isto e “não pode” fazer aquilo. É deficiente logo é um fardo para a sociedade. Precisa de todos os sistemas de apoio existentes e não consegue fazer nada por si próprio.

Felizmente esta atitude parece ter começado a mudar um pouco, mas enquanto crescia todos os artigos que li relacionados com a deficiência focavam no que as pessoas com deficiência não têm e no quê que elas precisam em termos de ajuda. Foi tudo muito sombrio.

Enquanto estava a crescer ao ser constantemente associada com tudo o que as pessoas querem evitar, resultou em cerca de uma década de psicologia clínica devido ao meu auto-ódio, que só recentemente me consegui libertar.

As pessoas com deficiência não podem fazer algumas coisas tão bem ou sem ajuda, mas podem fazer outras coisas incrivelmente, iguais a todos os outros, se não até melhor. Estou farta de ouvir dizer para dissociar-me do que realmente tem sido uma parte muito importante e positiva da minha experiência de vida – eu aprendi tanto por ser deficiente.

Eu quero ser capaz de comemorar o facto de pertencer à comunidade de deficientes de modo aberto e divertido como sou agora capaz de comemorar ser parte da comunidade gay. Eu não quero ouvir que quem eu sou é deprimente porque eu sei que de fato não sou uma pessoa deprimente. Eu sou positiva e optimista, muito em parte por ter descoberto a esmagadora diversidade e força que está presente dentro da comunidade de deficientes. Eu não gostaria de ter nascido de outra maneira. Tenho orgulho em ser deficiente.

By Julia Blackwell, traduzido por Rita Duarte

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